Iniciado em Teodoro Sampaio, projeto de conservação da anta, espécie conhecida como ‘jardineira das florestas’, completa 25 anos e se expande | Presidente Prudente e Região

Iniciado em Teodoro Sampaio, projeto de conservação da anta, espécie conhecida como ‘jardineira das florestas’, completa 25 anos e se expande | Presidente Prudente e Região
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Uma floresta sem antas é uma floresta que corre grande perigo de extinção. Isso não é nenhum exagero. De acordo com a Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira (INCAB), do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), que completa 25 anos em 2021, o ambiente de onde a espécie tenha desaparecido é “muito vulnerável e empobrecido em termos de biodiversidade”.

A maior razão para essa relação de qualidade de meio ambiente com a espécie é o fato de que a anta brasileira (Tapirus terrestris) é uma verdadeira “jardineira das florestas”.

Ela percorre grandes extensões de habitat em suas áreas de uso e, por se alimentar de diversas espécies de frutos, acaba “plantando” e renovando a floresta por meio das sementes que passam por seu trato digestivo e são depositadas por suas fezes.

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A anta (Tapirus terrestris) é vítima da caça e da perda de habitat — Foto: João Marcos Rosa/Arquivo Pessoal

A anta (Tapirus terrestris) é vítima da caça e da perda de habitat — Foto: João Marcos Rosa/Arquivo Pessoal

Em 2008, a INCAB expandiu suas ações para o Pantanal de Nhecolândia, no estado de Mato Grosso do Sul, um local com menos ameaças atuantes e onde as antas encontram-se em uma condição de conservação menos ameaçado. Desde então, a Iniciativa vem coletando informações extremamente relevantes sobre a espécie, envolvendo ecologia, saúde e genética.

Entretanto, em outra localidade de Mato Grosso do Sul, na região do bioma do Cerrado, a situação é totalmente oposta e as antas lidam com muitas rodovias e colisões constantes, caça ilegal e um risco muito elevado de contaminação por agrotóxicos em função da expansão da agropecuária em larga escala. Assim, em 2015, a INCAB também ampliou seus esforços de pesquisa para essa porção do bioma.

“A anta é a jardineira das nossas florestas e exerce um papel crítico para a conservação das mesmas. Adicionalmente, é uma verdadeira heroína, lutando para sobreviver em áreas extremamente degradadas. A espécie ainda persiste nessas paisagens antropizadas, mas seu papel na renovação florestal e manutenção da biodiversidade vem sendo bastante comprometido”, explica Patrícia Medici, coordenadora da INCAB-IPÊ.

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Pesquisadora Patricia Medici começou o projeto de pesquisa na Mata Atlântica — Foto: João Marcos Rosa/Arquivo Pessoal

Pesquisadora Patricia Medici começou o projeto de pesquisa na Mata Atlântica — Foto: João Marcos Rosa/Arquivo Pessoal

Conservação da espécie

Os programas de pesquisa nos diferentes biomas são o instrumento inicial e de base para que a Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira do IPÊ busque a efetiva conservação desta verdadeira heroína das florestas.

Com dados e resultados bastante substanciais (e, muitas vezes, alarmantes), a iniciativa busca influenciar o processo de tomada de decisões junto ao poder público para combater as ameaças atuantes e, claro, evitar a extinção da anta e de seus habitats remanescentes.

Um exemplo foi a abertura de inquéritos civis e ações civis públicas junto aos Ministérios Públicos Estadual e Federal com o objetivo de solicitar a urgente tomada de medidas para o enfrentamento dos atropelamentos e mortes de antas (e seres humanos) nas estradas de Mato Grosso do Sul.

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Projeto voltado à preservação da anta (Tapirus terrestris) começou há 25 anos, no Pontal do Paranapanema — Foto: INCAB-IPÊ

Projeto voltado à preservação da anta (Tapirus terrestris) começou há 25 anos, no Pontal do Paranapanema — Foto: INCAB-IPÊ

Em março de 2020, a INCAB concluiu seis anos de monitoramento de atropelamentos de antas nas rodovias sul-mato-grossenses. Desde 2013, 34 rodovias federais e as estaduais foram meticulosamente monitoradas, com o registro de mais de 600 carcaças de antas. No mesmo período, 77 pessoas ficaram feridas e 34 vieram a óbito por causa de colisões veiculares com antas nas rodovias estaduais e federais em MS.

Recentemente, a INCAB-IPÊ lançou um relatório bastante preocupante sobre os efeitos dos agrotóxicos utilizados na agropecuária no Cerrado na saúde das antas. Até mesmo anomalias físicas foram encontradas nos animais capturados e amostrados. Efeitos negativos dos agrotóxicos nos animais alertam também para a saúde humana. O estudo foi também publicado em uma revista científica internacional.

“Nossa missão é garantir a sobrevivência da anta no Brasil, sendo esta uma das formas mais efetivas de conservar os nossos biomas e as funções ecológicas das florestas, áreas úmidas, savanas e muitos outros ecossistemas utilizados por este animal. Conservando a anta, vamos também contribuir para a manutenção do clima, suprimentos para serviços ecossistêmicos, e o bem-estar humano. A vida da anta significa também a vida de uma série de outras espécies animais e vegetais que com ela compartilham o habitat”, coloca Patrícia.

Em 2021, a INCAB-IPÊ avançou também para o monitoramento das antas em ambiente urbano. Através do projeto Antas Urbanas, os pesquisadores vêm coletando informações sobre a ocorrência de antas nas áreas urbanas e periurbanas de Campo Grande (MS), cidade circundada pelo bioma do Cerrado. Em breve, antas serão capturadas e equipadas com colares de monitoramento por satélite para entender como funciona a ecologia da movimentação desses animais neste tipo de ambiente. Os animais capturados serão também amostrados para exames de saúde e genética.

Também em 2021, a iniciativa chegou à Amazônia para estudar as antas ao longo do arco sul do desmatamento, em áreas com grande interferência humana. O trabalho foi estabelecido em diversas áreas nos estados de Mato Grosso e Pará. Os dados compilados por estes estudos na Amazônia vão adicionar ainda mais ao conhecimento sobre a espécie no Brasil.

Longo prazo é essencial para a conservação

O maior banco de dados sobre a anta no mundo só pode existir dentro de um programa de longo prazo como a INCAB-IPÊ. É no longo prazo que as perguntas são respondidas com substância e robustez e as estratégias de conservação podem, então, ser desenvolvidas de forma sólida, realista e inclusiva.

A iniciativa vem operando nos últimos 25 anos graças a uma coalizão de parceiros institucionais e financeiros provenientes de diversas partes do mundo, em grande parte internacionais.

O impacto da pesquisa aplicada de longo prazo é tamanho que reflete na conquista de nove prêmios internacionais recebidos ao longo dos anos, incluindo o mais recente deles, o Whitley Gold Award (2020), considerado o Oscar Verde da Conservação.

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Projeto voltado à preservação da anta começou há 25 anos, no Pontal do Paranapanema — Foto: INCAB-IPÊ

Projeto voltado à preservação da anta começou há 25 anos, no Pontal do Paranapanema — Foto: INCAB-IPÊ

Na Mata Atlântica, no Pantanal, no Cerrado e no início das atividades na Amazônia*:

  • + de 500 amostras biológicas coletadas e estocadas em um BIOBANCO para estudos de saúde e genética
  • + de 700.000 fotos e vídeos de antas obtidos por armadilhas fotográficas nos diferentes biomas
  • 175 antas diferentes capturadas e amostradas (35 na Mata Atlântica, 104 no Pantanal, 35 no Cerrado e 1 na Amazônia)
  • 105 antas monitoradas por telemetria

*O corpo de dados aumentará significativamente a partir de 2021 com os novos programas na Amazônia e em áreas urbanas (Campo Grande, MS).

Linha do Tempo da INCAB-IPÊ (principais eventos):

  • 1996: Primeiro Grant – Fundo Nacional do Meio Ambiente
  • Estabelecimento da INCAB – Mata Atlântica
  • 1997: Primeira Captura na Mata Atlântica – Parque Estadual do Morro do Diabo
  • 2000: Patrícia Medici é nomeada presidente do IUCN SSC Tapir Specialist Group (TSG)
  • 2004: Prêmio Harry Messel Conservation Leadership IUCN
  • Início do experimento Plots de Exclusão no Parque Estadual do Morro do Diabo
  • 2008: Expansão para o bioma do Pantanal – Estabelecimento como iniciativa em nível nacional
  • Estabelecimento da INCAB na Fazenda Baía das Pedras, no Pantanal de Nhecolândia
  • 2008: Prêmio Future for Nature (Golden Ark Award) – Holanda
  • Prêmio Whitley – Reino Unido
  • 2012: Dados da INCAB-IPÊ utilizados pela primeira vez para alimentar a Lista Vermelha Nacional do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio)
  • 2013: Início do Monitoramento de Atropelamentos em Rodovias no Estado de Mato Grosso do Sul
  • 2014: Patrícia Medici recebe o Ted Fellowship – Whitley Fund for Nature Continuation Funding
  • 2015: Expansão para o bioma do Cerrado
  • 2016: Consolidação do banco de dados da INCAB como o maior sobre a espécie no mundo
  • 2017: Plano de mitigação de atropelamentos na Rodovia MS-040
  • 2018: Estabelecimento da ação civil pública para a Rodovia MS-040
  • Prêmio William G. Conway International Conservation Award da Associação Americana de Zoológicos – Estados Unidos
  • Relatório técnico sobre o impacto de agrotóxicos nas antas no Cerrado – INCAB passa a compor a comissão de combate aos impactos de agrotóxicos em Mato Grosso do Sul
  • Dados da INCAB-IPÊ utilizados para Plano de Ação Nacional para Ungulados Ameaçados – ICMBio
  • 2019: Prêmio National Geographic Howard Buffet – Estados Unidos
  • 2020: Retorno à Mata Atlântica 10 anos mais tarde
  • Prêmio Whitley Gold Award – Reino Unido
  • 2021: Publicação de Paper Toxicologia Cerrado
  • Expansão para o bioma da Amazônia
  • Estabelecimento do Projeto Antas Urbanas

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