Rever ‘A Rainha Margot’ em tela pequena revela sua dimensão trágica

Rever ‘A Rainha Margot’ em tela pequena revela sua dimensão trágica
Compartilhe

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – É estranha a sensação de rever “A Rainha Margot” quase 30 anos após seu lançamento original.

Nesse tempo o cinema mudou, a noção de grande espetáculo histórico mudou, ou ficou praticamente confinado ao século 20. E aqui estamos de volta ao século 16, às guerras de religião na França, às maquinações de uma Catarina de Médicis, que promove o casamento de sua filha Marguerite (dita Margot, Isabelle Adjani) com o rei de Navarra (Daniel Auteuil), em princípio com o objetivo de promover a paz entre os católicos (representados pela família real, os Valois) e os protestantes (ditos huguenotes por motivos que não vêm ao caso).

Ocorre que, por malícia de Catarina ou dos liderados do conde de Anjou, um de seus filhos, os convidados protestantes para o casamento foram massacrados na famosa Noite de São Bartolomeu. Henrique deveria ser morto, naturalmente, mas escapa, em parte graças à aliança política que estabelece com Margot. Embora não mantenham relações sexuais, se entendem, porque Margot teme a malícia de seus irmãos mais do que os próprios inimigos protestantes.

Patrice Chéreau, autor do filme baseado no romance de Alexandre Dumas Fº, faz parte dessa espécie de diretores que têm a ópera e o teatro como referência central de seu trabalhos. No caso, o vento sopra a favor: a produção é grande, na medida do assunto, cuidadíssima. Tanto a cenografia como a fotografia de Phillipe Rousselot destacam-se pela precisão e pela beleza. Diga-se o mesmo, basicamente, do elenco.

A cena do casamento, logo no início, dá ideia da grandeza do objetivo: uma espécie de Cecil B. DeMille a sério. Aos poucos, no entanto, é a ideia de saturação que se impõe. Os dramas eclodem em toda parte: Margot e seu amante huguenote, os filhos de Catarina e suas ambições, o rei Carlos 9º (Jean-Hughes Anglade), também filho de Catarina, porém sem a saúde e a convicção necessárias para levar adiante as maquinações maternas.

Há outra coisa mais que mudou nesses quase 30 anos que nos separam do filme, além do belo restauro promovido pela Pathe: desta vez o filme entra no streaming, destinado às telas relativamente pequenas da TV para uma produção dessa grandeza.

Talvez seja por isso que fica certa impressão de que algo está disperso no filme. Existe uma tensão desnecessária entre a multidão de crimes cometidos no período e os verdadeiros crimes, isto é, aqueles que envolvem os personagens centrais.

Nessa medida é que podemos pensar durante boa parte da projeção que estamos diante de um drama histórico, e não de uma tragédia. Pois se o excesso como ideia central, isto é, a desmedida da perfídia, espertezas e brutalidades envolvidas na trama e acentuadas pela mise-em-scène é que evitam degringolar o filme num sombrio academismo, é também esse excesso que arrisca de fazer o filme perder o foco. E isso porque os focos são múltiplos: Margot, a pivô da trama, Catarina, a que move seus fantoches, o duque de Anjou, com sua desmedida fé e ambição, Carlos 9º com sua fragilidade, Henrique de Navarra com sua luta para sobreviver em um ambiente hostil.

Para resumir, é de uma grande tragédia que se trata, embora nem sempre os personagens recebam esse tratamento todo o tempo (com exceção de Catarina de Médicis, uma aliás magnífica Virna Lisi). Por vezes, parece que o drama é de natureza antes de tudo psicológica. No mais, há momentos em que a sucessão de intrigas palacianas, assassinatos e tramas amorosas se embolem um tanto por falta de hierarquização.

Talvez a tela grande suprima esses incômodos; talvez seja justamente a tela pequena o que nos revele com clareza a dimensão trágica do filme. E são os momentos em que essa dimensão melhor se revela que justificam o filme. Pode faltar algo a essa renovada “Margot” para ser vista como obra-prima. Mas não faltam motivos para revisitá-la.

A RAINHA MARGOT
Onde: Belas Artes à la Carte
Elenco: Isabelle Adjani, Jean-Hugues Anglade, Daniel Auteuil, Virna Lisi, Vincent Perez
Produção: França, Itália e Alemanha, 1994
Direção: Patrice Chereau
Avaliação: Muito bom

Notícias ao Minuto Brasil – Cultura
Read More

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *