Filhos fortes – 15/02/2021 – Cecilia Machado

Filhos fortes – 15/02/2021 – Cecilia Machado
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“É mais fácil construir filhos fortes do que reparar homens quebrados.” A frase, de 1855, é de Frederick Douglass, um homem à frente de seu tempo em muitas dimensões —de escravo a líder abolicionista, foi enorme defensor da igualdade de direitos entre homens e mulheres, incluindo o direito ao voto.

O contexto da frase vem de uma série de diálogos com donos de escravos sobre a imoralidade da escravidão. Mas, passados quase dois séculos, a constatação de Douglass nunca esteve tão atual e com implicações tão amplas.

Agora, todos os países estão lidando com os efeitos perversos da pandemia na economia e na sociedade. No Brasil, o PIB caiu 4% em 2020, o mercado de trabalho ainda amarga perda líquida de emprego, a pobreza alcançou a maior marca de uma década, e muitas das nossas desigualdades foram amplificadas.

Os caminhos para a retomada da economia podem ser inúmeros, mas cada um deles leva a importantes questionamentos sobre onde priorizar os gastos públicos no pós-Covid.

A necessidade de (re)alocação de recursos em planos de recuperação nos oferece oportunidade única para priorizar investimentos estratégicos na atenção à saúde materna, neonatal e infantil, o verdadeiro berço da nossa formação como pessoas e cidadãos —como já identificado por Douglass— e ponto de partida para muitas das nossas desigualdades.

As condições de saúde ao nascimento e o desenvolvimento infantil em seus primeiros anos são importantes determinantes de muitos resultados econômicos e de saúde ao longo da vida das pessoas, tanto a curto quanto a longo prazo.

Diversos estudos já identificaram que mesmo pequenas intercorrências durante a gestação —como insegurança alimentar, estresse materno, poluentes— têm efeitos persistentes e sugerem que o tempo ótimo para intervenções e direcionamento de políticas públicas voltadas à redução de desigualdades pode ser dar mesmo antes do nascimento.

Bebês que nascem com baixo peso, por exemplo, têm maiores taxas de mortalidade ao longo da vida, menor nível de aprendizado e proficiência escolar, menores salários no mercado de trabalho e maior dependência em assistências sociais.

De forma semelhante, bebês prematuros, que experimentam restrições de crescimento intrauterino, ou que nascem de mães subnutridas, obesas ou hipertensas, têm chances elevadas de desenvolver hipertensão, diabetes e doenças do coração, entre outras.

No Brasil, a prematuridade está em trajetória ascendente. Além disso, cerca de 72% dos óbitos brasileiros ocorreram em razão de doenças crônicas não transmissíveis, como a hipertensão e a diabetes.

Dessa forma, focar o PIB como única métrica de recuperação é equivocado. Como recentemente bem apontou o economista Angus Deaton, o PIB é métrica bastante imperfeita e problemática do bem-estar material de uma sociedade: apesar de representar o valor monetário de bens e serviços produzidos em determinado período de tempo, ele não leva em consideração efeitos indiretos do crescimento econômico em outras dimensões, como na saúde da população.

Os exemplos são muitos. A produção da indústria de alimentos processados que entra no PIB não desconta sua contribuição para epidemia da obesidade. Também não entram na conta os cuidados que as famílias colocam na criação de seus filhos, fundamentais para o desenvolvimento físico, cognitivo e psicológico das crianças, que são peçaschave para produtividade de longo prazo da economia.

A recuperação pós-Covid pode ir muito além do PIB, e as possibilidades são muitas. Envolvem políticas voltadas à atenção à gestação, ao cuidado pré-natal, à licença parental, que encoraja a participação do pai, e ao aleitamento materno e uma rede de suporte para o desenvolvimento infantil. Todos geram benefícios que não se manifestam no PIB de curto prazo, mas que contribuem para um desenvolvimento econômico sustentável.

As melhores chances de prosperidade de uma sociedade estão na construção de filhos fortes, resilientes e saudáveis


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