‘Pão de Açúcar’ narra morte de brasileira trans do ponto de vista de seu algoz

‘Pão de Açúcar’ narra morte de brasileira trans do ponto de vista de seu algoz
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – No primeiro de seus diversos encontros no porão de um prédio inacabado, o garoto Rafael dispara contra Gi uma série de ofensas. Achava que ela queria roubar sua bicicleta.

“É minha, ó puta velha! Não lhe toques, que te parto a cara.” Ela o faz sentar e, calma, responde. “Não ligo, menino, já me insultaram muito.”

A partir daí, os dois criam uma relação de intimidade, nunca desarmada de certa tensão. Gi, uma mulher transexual na casa dos 40 anos, será uma pessoa vital para aflorar a sensibilidade de Rafael, o narrador da história. E também será assassinada por ele, ao lado de outros colegas, ao longo de dias de espancamentos brutais.

O romance “Pão de Açúcar” é baseado numa história verdadeira que escandalizou Portugal há 14 anos, quando 14 adolescentes mataram uma brasileira num crime transfóbico na cidade do Porto. Ficou conhecido no país como “o caso Gisberta”, como mostram recortes jornalísticos reunidos no final do livro, e a ele se atribuem mudanças significativas na legislação portuguesa de proteção à comunidade trans.

“O que aconteceu exatamente na garagem parcialmente abandonada continua longe de ser esclarecido”, noticiou o jornal Público em fevereiro de 2006. “O fato de ser travesti, toxicodependente e apresentar uma saúde frágil tornava-a um alvo fácil. Mesmo assim, um [dos adolescentes] disse também ser seu amigo.”

Foi esse o ponto de vista que Afonso Reis Cabral decidiu adotar para nortear seu romance, consagrado com o prêmio José Saramago há dois anos e agora lançado no Brasil.

Uma escolha desafiadora, mas que pareceu inevitável ao autor. “Porque aí há uma perspectiva terrível da realidade. Estar na pele de quem agride é algo que incomoda o leitor, que o põe num lugar de desconforto. E a literatura para mim é esse lugar.”

“Percebi que no caso real havia ausências que podiam ser preenchidas pela ficção”, afirma o português de 30 anos, ressaltando que seu trabalho não reporta, mas reinventa a realidade. “Uma delas é o vazio que vai desde que os primeiros rapazes descobrem e ajudam a Gisberta até quando esses mesmos rapazes participam das agressões que acabam por matá-la. Há aqui uma jornada psicológica, interior, sobretudo literária.”

Na narrativa de Cabral, Rafael e outros dois colegas de internato são ao mesmo tempo impelidos e repelidos pela presença de Gisberta ao longo de semanas. A descoberta atribulada da identidade e do sexo pelos adolescentes se vê confrontada por uma personagem que põe em xeque seus conceitos broncos de masculinidade.

Num momento de clímax, Gi surpreende o protagonista quando o recebe montada da forma como costumava se apresentar em performances, com cabelo ruivo e um vestido de lantejoulas “que brilhava à luz das labaredas”.

“Era uma mulher e caminhava para mim”, escreve o narrador. “Naquele estado, ela não era a pessoa que eu tinha ajudado nem a pessoa que eu insultara -era alguém por inteiro dedicado a mim e mostrando aceitar-me com uma pureza que não condizia com aquela merda de sítio.” A cena vai do assombro ao desejo, ao susto, à agressividade.

Obras como “Pão de Açúcar”, que procuram destrinchar a personalidade e as motivações de agressores, às vezes são acusadas de simpatizar com seus personagens ou de justificar aquilo que é hediondo –nesse caso, a transfobia.

“Acho uma reação infantil à literatura, algo cada vez mais em voga”, diz o autor. “É subalternizar o leitor e pensar que ele não consegue definir o que está lendo. Que tem que ter um disclaimer inicial dizendo ‘isto é mau’, como se o leitor não soubesse.” Segundo ele, quem lê “saberá com certeza que a condição humana é muito mais complexa que uma visão maniqueísta da realidade”.

Cabral evita, aliás, a armadilha de retratar Gisberta como mero objeto, um propulsor dos sentimentos alheios. Diversos capítulos se dedicam a romancear a vida pregressa da mulher, da infância em São Paulo, desejosa do corpo das duas irmãs, à chegada ao Porto, quando era invejada pelas colegas de pensão.

São trechos sensíveis que elevam a dimensão da tragédia contada em paralelo, narrados por um protagonista tomado de arrependimento -e saudade- atroz.

“Eu considerava triste a Gi acabar assim” escreve ele, ao lembrar os momentos derradeiros da mulher, “entre gente como o Fábio, o Leandro e o Grilo, para quem a vida dela tinha sido pouco mais do que o contraste entre as mamas e o pênis”. “Pão de Açúcar”, por outro lado, tem clareza de que Gisberta era bem mais do que isso.

PÃO DE AÇÚCAR
Preço R$ 44,90 (256 págs.;) R$ 34,90 (ebook)
Autor Afonso Reis Cabral
Editora HarperCollins

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