Boa Esperança: o Índice de Equilíbrio Racial – 25/01/2021 – Michael França

Boa Esperança: o Índice de Equilíbrio Racial – 25/01/2021 – Michael França
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Em experimento realizado nos Estados Unidos, Bertrand e Mullainathan constataram que uma simples mudança no nome do candidato no currículo afetava a chance de receber ligações de retorno para entrevistas de emprego.

Os currículos com nomes habitualmente usados por pessoas brancas receberam 50% mais ligações do que os demais no estudo (“Are Emily and Greg More Employable Than Lakisha and Jamal? A Field Experiment on Labor Market Discrimination, 2004”).

Além das tradicionais formas de discriminação no mercado de trabalho, a população negra enfrenta outras barreiras. Uma delas se refere a discriminação sem intenção.

No ano passado, Small e Pager, da Universidade Harvard, chamaram a atenção dos economistas para esse fato em um artigo na American Economic Review (“Sociological Perspectives on Racial Discrimination, 2020”).

Um exemplo de discriminação sem intenção ocorre com o processo de indicação de vagas de trabalho. Na ausência de maior convivência entre as classes sociais, este processo de contratação tende a favorecer os descendentes de famílias de alta renda.

Deve-se lembrar que o Brasil é um país relativamente segregado. Para muitas famílias, a única experiência de socialização com pessoas de baixa renda ocorre por meio da interação com empregadas domésticas.

Por sua vez, essa relação costuma apresentar abusos de poder, característica saliente da nossa sociedade.

Neste contexto, em um país em que a raça não tivesse tido efeitos na estruturação socioeconômica, deveríamos esperar que existisse certo equilíbrio racial em todas as organizações.

Entretanto, embora isso ainda seja algo distante do Brasil, existem meios pelos quais, através de um debate construtivo e de ações coletivas, podemos transformar essa realidade.

Uma forma é por meio da avaliação e monitoramento do desequilíbrio racial no mercado de trabalho formal ao longo do tempo.

Com isso, é possível revelar aquelas empresas, setores, cidades e estados que não tiveram avanço na promoção da equidade racial em anos recentes e, assim, procurar entender os motivos e propor soluções.

Além disso, a revelação daqueles lugares que tiveram consideráveis avanços nessa agenda ajudará na identificação das melhores práticas de atuação. Adicionalmente, a comparação do desempenho entre organizações e regiões poderá gerar incentivos para a promoção da equidade racial.

Em um trabalho recente, eu e os pesquisadores Sergio Firpo e Lucas Rodrigues, propusemos o Índice de Equilíbrio Racial (IER).

Esse índice mede o quanto a distribuição racial dentro de uma organização ou região está distante da realidade da população do seu entorno (Índice de equilíbrio racial: uma proposta de mensuração da desigualdade racial entre e dentro das categorias ocupacionais, 2020).

O IER pode apresentar valor negativo, indicando uma sobrerrepresentação de brancos, ou positivo, apontando uma sobrerrepresentação de negros. Em uma sociedade equânime, o IER seria próximo de zero.

Deste modo, este índice representa uma ferramenta que fornecerá para a sociedade mais transparência da evolução do desequilíbrio racial.

De forma semelhante ao que ocorre com o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), esta métrica tem potencial para tornar-se relevante medida usada no desenvolvimento de iniciativas e de políticas públicas voltadas para a promoção da equidade racial.

Um novo Brasil é possível. Existem boas esperanças para isso.

O título representa uma referência à música Boa Esperança, de Emicida, que chama a atenção para a possibilidade de elevação na tensão social. O clipe da música narra a revolta de um grupo de empregadas devido às condições de trabalho (documentário do clipe). Além disso, como filho de uma doméstica, não podia deixar de fazer uma homenagem à minha mãe, Zilá França.


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