Os videogames são o futuro do trabalho remoto? – 22/01/2021 – Tec

Os videogames são o futuro do trabalho remoto? – 22/01/2021 – Tec
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Quando chego ao escritório da IDE Corp., uma empresa de 28 pessoas que oferece consultoria e desenvolvimento profissional para professores e administradores de escolas, a fundadora, Nancy Sulla, me cumprimenta calorosamente, depois me leva para conhecer o lugar, apresentando-me a seus funcionários enquanto passamos.

Trabalhando em um sofá numa área de estar, a vice-presidente-executiva, Tanya Bosco, está discutindo novos tipos de currículos com um de seus funcionários diretos, enquanto um pastor-alemão descansa a seus pés. Ali perto, em suas mesas, alguns funcionários parecem envolvidos no trabalho. Em uma sala de conferências, entramos numa reunião de desenvolvimento de empresas que inclui meia dúzia de empregados compartilhando documentos ao redor de uma mesa comprida.

Mais tarde, caminhamos até a praia, onde a editora de texto da IDE montou sua mesa. Ela diz que prefere o relativo isolamento aqui, já que seu trabalho é menos colaborativo que o de outros funcionários. Atrás de nós se erguem as muralhas dos escritórios da IDE, que estão instalados em um castelo medieval.

Já estive em muitos escritórios de empresas, mas em termos de metragem e amenidades o da IDE está entre os mais incríveis. Afinal, poucos podem se equiparar a coisas como um bar, um auditório no estilo TED e vista para o mar.

Outra diferença: ele é completamente virtual. O edifício existe nos servidores da Gather, companhia que oferece um novo tipo de serviço baseado em nuvem para trabalho remoto.

À primeira vista, a Gather parece uma mistura de videogames dos anos 1990 com o aplicativo Zoom. Pense nos primeiros Zelda ou Final Fantasy, mas em vez de percorrer o campo matando monstros você circula por um escritório, às vezes conversando com pessoas através de uma interface de videoconferência conhecida. Você também está colaborando em documentos baseados na web e aplicativos acessíveis, como as poções ou o tesouro de um game, no espaço “físico” de seu avatar.

Pode parecer um pouco artificial. E se você é um funcionário de escritório já exausto com as inúmeras reuniões pelo Zoom e de nunca trabalhar totalmente offline durante a pandemia, pode soar como algo já conhecido. De fato, alguns especialistas acreditam que talvez seja demais esperar que trabalhadores remotos usem ferramentas como essas para estar ainda mais presentes –tanto emocionalmente como em chat por vídeo– do que eles já estão.

Mas tais serviços já têm uma quantidade considerável e crescente de clientes. Perto de uma dúzia de startups oferecem serviços como o da Gather, a maioria iniciada nos últimos 12 meses.

A Teamflow, que se concentra em criar ambientes que parecem escritórios reais, acaba de receber US$ 3,9 milhões (R$ 20,7 milhões) em investimento, e está sendo testada por funcionários da Apple, Reddit e Uber.

Outra, a SpatialChat, hoje tem mais de 2.500 empresas, instituições e indivíduos como clientes pagantes, com mais de 100 mil usuários ativos mensais, diz o executivo-chefe, Almas Abulkhairov. Eles incluem empregados da Sony, Panasonic, Sega, LinkedIn, Salesforce e McKinsey, além de educadores e funcionários de 108 universidades americanas, incluindo Harvard, Stanford, Yale, MIT e outras, ele acrescenta.

A Remo, que se dedica a eventos e cresceu para cerca de 80 funcionários, tem centenas de milhares de usuários ativos mensais e é usada por Lufthansa, IBM, ARM, Shopify e várias universidades, diz o fundador, Hoyin Cheung. A companhia passou a ter uma receita de 8 dígitos em 9 meses desde a fundação e não tomou investimentos externos, acrescenta ele.

Companhias e organizações estão usando essas plataformas de diversas maneiras, inclusive aulas e eventos –de happy hours e convenções a reuniões corporativas (town hall) e de informações diárias (stand-up)–, mas também cada vez mais como um substituto cotidiano a ir ao escritório. Algumas empresas pedem que os empregados fiquem logados sempre que estiverem diante do computador.

Outras startups nesse espaço incluem With, Branch, Reslash, Around, Sococo e Topia. Cada uma tem um viés ligeiramente diferente da mesma ideia básica: permitir que as pessoas se movimentem em um ambiente virtual 2D, e conversem por vídeo com outras que estão próximas.

A proximidade é essencial: as pessoas que estão mais distantes nesses espaços virtuais, assim como na vida real, estão fora do alcance da voz em quase todas essas plataformas. Do mesmo modo, quando as pessoas estão em salas virtuais, nas mesas ou em outros espaços privados, só as que também estão ali podem falar com elas.

Essa pode ser uma metáfora útil, psicologicamente. Você provavelmente está acostumado a se aproximar de pessoas no escritório para fazer uma pergunta. Mas se você tiver a mesma pergunta trabalhando remotamente, suas opções são outras. Você envia um e-mail para uma lista de 40 pessoas, esperando que uma delas responda? Você entra no Slack desse mesmo grupo de 40 pessoas? Se você tivesse um escritório virtual, poderia “ver” várias pessoas daquele grupo e se sentir mais confortável para clicá-las para uma pergunta. E talvez, no caminho, você “esbarre” em uma amiga com quem não conversa há algum tempo, exatamente como faria em um escritório real.

Outro fator importante: as pessoas têm uma capacidade notável de navegar, memorizar e ficar à vontade em espaços virtuais. Na verdade, um grande corpo de pesquisa documentou como nossa capacidade de interagir com pessoas e objetos em espaços físicos e virtuais está profundamente inserida em nossa estrutura cerebral. Eu notei isso pessoalmente durante testes de alguns desses serviços. Esse fato não deve surpreender ninguém que já passou muito tempo jogando videogames, mas é mais intuitivo “encontrar” alguém aproximando-se dessa pessoa do que escolhendo em um menu ou outro diretório de texto.

Segundo os criadores desses serviços e seus usuários –assim como especialistas independentes em trabalho remoto–, eles alcançam uma porção de coisas que Zoom, Slack e intermináveis documentos compartilhados não conseguem: eles acionam as células de localização em nosso cérebro. Eles nos permitem socializar e colaborar usando normas adquiridas do trabalho em escritórios reais. E nos permitem organizar nosso trabalho –documentos, projetos, tabelas e outros arquivos de todo tipo– em um espaço físico persistente. Dessa maneira, esses escritórios virtuais podem funcionar como aproximações razoáveis de “palácios da memória”.

Florent Crivello, presidente da Teamflow, diz que encontrou sua própria equipe usando seu produto exatamente dessa maneira –criando, por exemplo, salas em seu escritório virtual dedicadas a projetos específicos. Como resultado, quando eles querem voltar a um determinado esforço de marketing, todos retornam à sala onde estão trabalhando nisso. Em vez de procurar documentos, eles simplesmente clicam nos itens que haviam colocado anteriormente na sala.

Agora já está claro que o trabalho remoto veio para ficar. Uma pesquisa da Gartner publicada em meados de dezembro descobriu que 90% dos chefes de RH pretendem permitir que os empregados que podem trabalhar remotamente o façam, pelo menos em tempo parcial, mesmo depois que uma vacina para Covid-19 esteja amplamente disponível. Esses mesmos chefes predisseram que apenas a metade de sua força de trabalho vai querer voltar ao escritório quando puder.

O que está menos claro são as maneiras como as companhias vão reorganizar o trabalho em torno dessa nova realidade, disse Tammy Bjelland, fundadora e presidente da Workplaceless, que dá consultoria e treinamento para empresas sobre como trabalhar remotamente com eficiência. Há duas coisas que as empresas que querem tentar um escritório virtual usando serviços como estes devem levar em conta, adverte ela.

Primeiro, as companhias muitas vezes supõem que uma nova ferramenta por si só vá resolver seus problemas de trabalho remoto e híbrido, sem admitir que elas devem fazer os funcionários adotarem essas ferramentas. Quando uma nova ferramenta é adotada, os empregadores devem documentar e compartilhar normas para sua utilização. “Mesmo antes da Covid, acho que as organizações tendiam a se concentrar um pouco demais nas ferramentas que estavam usando, em oposição a como usar a ferramenta”, disse Bjelland. Segundo, se for usado de maneira imprópria, um escritório virtual pode levar a alguns dos mesmos problemas que ocorrem em um espaço físico, como maior distração, acrescenta ela.

Pilar Orti, diretora da Virtual not Distant, que ajuda gerentes e suas equipes a adotar práticas de colaboração online, teve experiência com versões anteriores desse tipo de ferramenta de escritório virtual e diz que elas não são uma panaceia. Enquanto podem funcionar para equipes menores e empresas que já são construídas em torno do trabalho remoto, alguns de seus clientes descobriram que fazê-los participar do fluxo de trabalho cotidiano de uma equipe pode ser desafiador, acrescenta ela.

As equipes muitas vezes já têm ferramentas de comunicação remota a que estão acostumadas, e introduzir uma nova é só mais uma coisa para se logar e manter atualizado. Soluções mais simples, adotadas conscientemente pelas equipes, como alertar outros membros de que você está trabalhando, e documentos compartilhados em que os funcionários mantêm uns aos outros informados do que estão fazendo, também podem funcionar, se esses sistemas forem formalizados, diz Orti.

Voltando ao castelo da IDE, pergunto a Bosco (a vice-presidente executiva com o pastor-alemão virtual) como ela pode estar disponível para pessoas para conversar enquanto caminha e também fazer seu trabalho.

Ela diz que para sua equipe foi um processo de estabelecer novas normas. Por exemplo, a Gather permite que você desligue sua câmera e seu microfone, mas continue logado no serviço. Se o avatar de outra pessoa se aproxima do seu e aquela pessoa diz “Olá”, você a ouvirá e poderá responder ou não. Além disso, há todas as pistas espaciais: avatares “sentados” em suas mesas pretendem estar menos disponíveis que os encontrados na sala de estar ou na cafeteria virtuais –lugar onde os funcionários muitas vezes conversam enquanto fazem suas refeições da vida real.

Se cafeterias virtuais parecem uma loucura, pense nisto: um dos modelos da Gather tem até um banheiro. A IDE avaliou isso, diz a doutora Sulla, mas “decidimos que era meio estranho”.

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